A MÚSICA NO TEMPO DAS MISSÕES JESUÍTAS

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nov 252014
 

A importância dos jesuítas na História do Brasil é imensa e pode ser avaliada através do destaque que ainda hoje têm figuras do porte de Anchieta, Nóbrega e Vieira, três dos muitos discípulos de Inácio de Loyola que tiveram um papel fundamental na formação da identidade brasileira. Os primeiros jesuítas chegaram aqui apenas nove anos após a fundação da Companhia de Jesus em 1540 e durante mais de dois séculos (de 1549 a 1759), participaram ativamente do nosso processo colonizador.

A atuação deles foi de grande interesse para a Coroa Portuguesa, pois muitas vezes ocupavam áreas disputadas com a Espanha.  210 anos depois da sua chegada, a Companhia havia se estabelecido por toda a costa do Brasil, de Belém, no Estado do Pará, até Laguna, em Santa Catarina, espalhando-se desde as aldeias do interior da Amazônia à porção meridional do país (Sete Missões).

Com a missão de catequizar e educar, os missionários logo perceberam na musica um meio eficaz de sedução e convencimento dos indígenas. Estes eram fascinados pelos cantos e as musicas trazidas da Europa. Apesar das poucas pesquisas existentes sobre o assunto, sabemos que esta atuação musical dos jesuítas influenciou sobremaneira tanto na formação da cultura brasileira como na criação específica deidentidades culturais regionais.

A presença dos jesuítas também foi vital no Maranhão. Na “Crônica da Missão do Maranhão”, escrita em 1698, o Padre João Felipe Bettendorf descreve suas experiências pessoais nas missões locais e refere-se à praticas musicais em vários trechos dessa crônica, onde faz claras referências a índios músicos (geralmente chamados de “charameleiros” ou “mestres de capela”). Vale ressaltar que um dos principais relatos de autoria jesuítica, foi mais tarde escrito pelo Padre Jose de Morais, em 1759, com o titulo “A historia da Companhia de Jesus na extinta Província do Maranhão e Pará”.

Presente em todos os colégios e seminários importantes, entre 1600 e 1773 (data da bula que extinguia a Companhia), a atividade musical incentivada pelos jesuítas era vigorosa não só no Brasil, mas igualmente nas demais missões inacianas disseminadas pela América Espanhola e, a partir da ação pioneira de Francisco Xavier, por toda a Ásia (Índia, China, Japão, Vietnã, Filipinas etc.).

Fosse na Europa, nas Américas ou na Ásia, os jesuítas utilizavam a música extensivamente na catequese,  na liturgia e em eventos religiosos os mais diversos, como procissões e congregações marianas (confrarias), com frequência em conexão com produções dramáticas, festividades acadêmicas e na dança.  Atesta isso a enorme quantidade de hinários editados e escritos por jesuítas.

Em muitos casos eles eram profissionalmente engajados com a música. Além de patrocinarem inúmeros músicos famosos da época, eram ativos como compositores, teóricos, construtores de instrumentos, historiadores e intérpretes. No Brasil especificamente, os jesuítas foram os primeiros fundadores da escola de música instrumentista, com enfoque na flauta, no violino, no cravo e no órgão, por serem estes os instrumentos mais apropriados ao acompanhamento das vozes nos cantares das igrejas.

Bons psicólogos, os inacianos sempre aproveitaram a disposição inata dos índios, aceitando, assimilando e incorporando o ritmo e os instrumentos nativos. Assim, a música transformou-se no melhor suporte de catequese no Brasil dos séculos XVI e XVII.  Não era para pouco, pois desde o principio da colonização (e a partir de Tomé de Souza, primeiro governador do Brasil, em 1549), a presença dos índios aliados era de grande importância.

Além de ocupar terras da colônia, o trabalho dos jesuítas trazia os índios para aldeamentos próximos dos núcleos urbanos e os capacitava a desempenharem tarefas para os brancos. Para isto o conhecimento e divulgação (via a primeira “formatação” do tupi-guarani falado em toda a colônia ate o final do século XVIII) das línguas indígenas eram fundamentais. Neste processo, cantigas e orações foram traduzidos, autos foram escritos na “língua brasílica” e surgiram as primeiras gramáticas das línguas indígenas, como a de Jose de Anchieta em 1595 ou do Padre Luis Figueira em 1621.

Os principais estabelecimentos jesuíticos no Brasil eram de fato os colégios. Todos os aldeamentos deviam ser vinculados a um colégio. As casas ou residências eram inicialmente escolas de ler, escrever e contar voltadas para meninos índios e meninos filhos dos portugueses. Com o tempo e graças à dotação real e ao reconhecimento oficial, elas foram se sofisticando e deram origem aos colégios (voltados exclusivamente para a formação dos brancos). Este lado pedagógico ao qual se associava a musica serviu de matriz à emergência de uma pequena elite intelectual, pois,no Brasil colonial, os colégios jesuíticos eram a única possibilidade de ensino superior, possibilidade esta que desapareceria com sua expulsão e seria retomada somente em 1814.

A partir do século XVI, o ambiente musical começa a ser também externo aos estabelecimentos jesuíticos. Começam em alguns aglomerados como Olinda e Salvador as primeiras descrições de uma prática musical alheia às aldeias e ao processo de conversão dos índios. Em 1610, por exemplo, um viajante francês menciona umsenhor de engenho que contratava os serviços de um profissional francês para ”ensinar musica a vinte ou trinta escravos, que, todos juntos, formavam uma consonância de vozes e instrumentos, que tangiam sem cessar.”

Servida por “domésticos-músicos” e por instrumentos bastante rústicos e dos mais diversos tipos, tais como “frautas”, “tíbias”, “charamelas”, “buzinas”, “gaitas”, “gaitinhos”, “baixoes”, “fagots” , “docainas” e “tubae” (trombetas), bem como  instrumentos de cordas, como violas, “descantes”, “rabecas” e harpas, a música, no tempo dos jesuítas, se espalhara fora dos lugares de culto para servir de base histórica, já culturalmente miscigenada, à musica brasileira do século XIX e contemporânea.

A quarta edição do festival de Alcântara (antiga Casa Jesuíta de Tapuytapira) ilustrará estas raízes importantes e poucas conhecidas, assim como suas relações profundas entre a missão educativo-espiritual da principal ordem religiosa presente na colônia – que formou tantas gerações de brasileiros durante mais de 200 anos – e a música, tanto como instrumento de pregação de fé como através dos seus pendentes laicos e civis que sobrevivem até os tempos atuais.

Bernard Vassas