Vozes e música da reconciliação

Em uma terra de miscigenação como o Maranhão, vale a pena propagar músicas, símbolos de miscigenação.
No Nordeste brasileiro, a pluralidade das origens brota tal como uma fatalidade da história. Ela cresce há cinco séculos para deixar emergir uma identidade futurista, enriquecida pela complexidade das suas raízes.

Mas o caminho até este laboratório cultural sul-americano iniciou-se por atalhos mais antigos. Estas vias, durante os últimos mil anos, transformaram-se em amplas estradas, levando-nos a cruzamentos culturais mal lembrados e quase esquecidos entre os mundos mediterrâneo e oriental. Entre os tempos medievais e contemporâneos.

Pois, desde o século VIII, na Península Ibérica, muitas sementes importantes da futura América Latina foram fertilizadas por influências misturadas: europeias, africanas e, sobretudo, orientais.

No Maranhão, a miscigenação tornou-se uma regra desde que os povos tupinambás, na costa, e os Tapuias, no interior, foram surpreendidos por galeões ibéricos cheios de avidez e de utopia excludente.

Vale lembrar, em nossos tristes tempos de novas guerras étnicas, tanto no Oriente como na África, em nossa época moderna de sofrimento e de discriminação, alimentada por imensos cortejos de exilados nunca vistos desde a Segunda Guerra Mundial, que o Maranhão acolheu varias diásporas sem rumo.

Aos exilados “econômicos” voluntários juntaram-se sempre oleadas de imigrantes vítimas da violência humana. Simbolizada tanto pela escravidão como por conflitos religiosos diversos. Fugidos, “refugiados”, sempre perseguidos pela discriminação dos vencedores, pelos “pogroms” de todos os gêneros e pelo estouro dos antigos impérios europeu e otomano.

Peregrinos de todos os êxodos chegaram a estas terras. Africanos de várias nações conquistadas, europeus sem fronteiras e orientais diversos como sírio-libanês, turcos, judeus sefarditas… Todos, juntos, tiveram que se reerguer neste Mundo Novo. Como não lembrar, por exemplo, que 12% dos ludovicenses são de origem sírio-libanesa.

Uma “mistura” cujos principais ingredientes culturais já haviam convivido durante mais de sete séculos na Península Ibérica, naquele antigo grande polo artístico e intelectual mundial que foram a Espanha e o Portugal islâmicos: Al-Andalus.

Ao nosso modo, bem modestamente, queremos dar um sentido este ano ao que aponta o escritor franco-libanês Amin Malouf: “Para ressuscitar e dar algum sinal de esperança a nossa humanidade desorientada, é preciso ir mais longe do que um simples diálogo das culturas e das crenças. É preciso ir até um diálogo das almas. Tal é, neste inicio de século XXI, a missão insituável da arte”.

Seguindo então os passos milenares das artes musicais, o V Festival de Música Barroca de Alcântara quer ser mais do que nunca (após dedicar-se às músicas da Fundação de São Luís, da colonização holandesa, do tempo das missões jesuítas na América Latina) o Festival da reconciliação, da inclusão e da harmonia.

Apesar dos conflitos selvagens no Oriente e na África, do terrorismo internacionalizado, desejamos promover uma frágil paz mundial, oferecer ao nosso público um acesso a novos horizontes musicais.

O Brasil e mais particularmente o Maranhão são oferecidos como o lugar ideal para fomentar tais encontros musicais inter-raciais e inter-religiosos.

Isto é a ambiciosa missão, que pretende cumprir com o firme apoio dos nossos patrocinadores, o itinerante Festival de Música Barroca de Alcântara, que se consolida desde 2011 nas cidades de Alcântara, Bacabeira, Rosário e São Luís, com os seus concertos, ações pedagógicas e sociais.

A miscigenação foi e sempre será um elemento fundamental de inclusão.

O diálogo das culturas e das músicas, sinônimo da diversidade e da tolerância que o Brasil continua a ser e simboliza internacionalmente, deve continuar a fertilizar os nossos ideais. Longe dos ruídos e dos furores das armas, vale lutar para uma civilização digna de nossos antepassados e herdeiros.

Porque conquistar almas pela cultura e pela música sempre será mais complicado e gratificante que dominar territórios, povos pelo terror e o sangue.

 

Raízes musicais comuns a serviço da paz

A convivência religiosa entre as três grandes religiões monoteístas da Bíblia alimentou as bases da cultura europeia, tanto na arquitetura, nas ciências, na literatura, na filosofia e, naturalmente, no universo musical, a partir da música “árabo-andaluz”, ou melhor, “hispano-andaluza”, pois o patrônimo daquele gênero musical ainda é tema de debates entre especialistas.

Em Portugal e na Espanha, sob influência do Islam durante quase oito séculos, esta mistura de povos, na gestação dos seus padrões artísticos, trazia influências orientais e africanas. Os mesmos se adaptaram a elementos culturais já sedimentados durante séculos naquela Península Visigótica, Cristiana e Judia.

Daquele terriço fértil, cujo emergente Império islâmico espalhava-se então de Samarcanda, na Ásia Central, até Lisboa, sairiam mais tarde os colonizadores espanhóis e portugueses: os conquistadores do Novo Mundo, os fundadores daquela América do Sul, que alguns chamam de Extremo Ocidente.

Depois da “Reconquista Cristã” e da “conquista” simultânea do Continente Americano, as influências desta música e suas regras, como também a importância que esta dava ao canto e às danças, marcaram e continuam impregnando países ibéricos, europeus e do mundo islâmico.

A partir da Idade Media e até hoje, a música “hispano-andaluza”, com as suas influências multiculturais, tem nutrido muitos compositores.

Desde o escravo liberado, o genial compositor sírio Zyriad, exilado em Córdoba no século IX, até o canto flamenco e o fado contemporâneo, este diálogo intercultural continua vivo.

A partir do Maranhão e do V Festival de Alcântara (Al Kantara significa justamente ‘a ponte’ em árabe), pretende iniciar-se o mesmo “intercâmbio” musical para ilustrar e propagar, desde aqui, uma “ponte” espiritual imaginária, sustentada por mensagens de esperança, de amor e de paz.

Desde as curiosas “Cantigas de Santa Maria”, homenageando o Rei Católico espanhol Alfonso X, o Sábio e o Tolerante, a música árabe e suas “escalas musicais”, perpetue também a música grega e se insinue até nos cantos gregorianos.

Pelos povos árabes, ela sobreviveu ao exílio que seguiu definitivamente, em 1611, o abandono da Península Ibérica pelos mouros e depois pelos mouriscos ou conversos.

Até hoje, a música “árabo-andaluz” se mantém firmemente no norte da África via as poéticas clássicas das Nubas (ou Noubas) e do mistério das suas origens, cujas raízes “antifônicas” (que nunca usam refrão) são tanto gregas, andaluzas, como árabes.

Como não perceber nestes cantos emocionantes entre o solista e o grupo, a figura filosófica do músico, que na sua melancolia alegre tenta falar com as almas? As Nubas e as suas variações influenciaram gerações de músicos clássicos e são cada vez mais valorizadas e estudadas no Marrocos, no Egito, na Argélia e na Tunísia.
Mas como também não adivinhar, como fez o grande compositor castelhano Manuel de Falla, influências bizantinas (e visigóticas) no canto espanhol?

A partir de Al-Andalus, nasceu também, em boa parte, a “suíte” musical clássica, que consiste em reunir várias peças em um vasto molde musical, primeiro na França, onde se usa este termo pela primeira vez no século XVI, e antes de brilhar mais tarde em toda a Europa, com o compositor Johann Sebastian Bach, no século XVIII.

A origem de muitos instrumentos é também um produto daquela convivência, apesar de muitos modelos citados pelos anciãos terem desaparecido por falta de documentação: o alaúde, o “rebec”, o adufe, chegaram todos através destas peregrinações artísticas. Mais fácil talvez lembrar ao público que a “guitarra” vem da “qitara” andaluza?

A quinta edição do Festival de Música Barroca de Alcântara precisava mesmo homenagear, no Maranhão, esta mestiçagem cultural e erudita mal conhecida.

 

O Festival de Alcântara está de volta.

A 5ª edição será entre 21 a 27 de Julho de 2016 em Rosário, Bacabeira, Alcântara e São Luís.

Os melhores grupos internacionais de música barroca.

TEMA: Encontro Entre Oriente e Ocidente.

Concertos grátis, ações didáticas, conferências sobre música erudita e integração social com os melhores especialistas latino-americanos do gênero.

Uma edição excepcional para um evento internacional inédito

ENTRADA FRANCA PARA TODOS

Depois do sucesso obtido nas quatro primeiras edições do Festival, convidamos a todos para o V Festival de Música Barroca de Alcântara, de 21 a 27 de julho de 2016, com programação nas cidades de Rosário, Bacabeira, São Luís e Alcântara.

Veja alguns destaques:

The Boston Camerata
Yanqin Ensemble
Encontro Oriente com Ocidente
Ensemble Gaoshan Liushui

 

Diálogos entre o Oriente e Ocidente

A V edição do Festival de Música Barroca de Alcântara será dedicada ao tema “Diálogos musicais entre o Oriente e o Ocidente” e homenageará a música “hispano-andaluza” ou “árabe-andaluza”. Nascida da mistura de diversos ingredientes culturais, africanos e orientais a partir do século VIII na península Ibérica, a música árabe-andaluza tem influenciado a música europeia desde a Idade Média até hoje.

O Brasil, e particularmente o Maranhão, se oferecem como o lugar ideal para fomentar tais encontros musicais. Pois nas terras maranhenses convive um mosaico de gente de raízes tão diferentes. A miscigenação é a regra desde que os povos Tupinambás e Tapuia foram surpreendidos por galeões ibéricos cheios de avidez e de utopia excludente. Vale lembrar, em nossos tristes tempos de novas guerras étnicas no Oriente e na África, época moderna de sofrimento e de discriminação, de imensos cortejos de exilados nunca vistos desde a Segunda Guerra Mundial, que o Maranhão também acolheu várias diásporas sem rumo. Aos exilados “econômicos” voluntários se juntaram sempre ondas de imigrantes, vítimas da violência humana simbolizada pela escravidão, pelos conflitos religiosos, pelos “pogroms” de todos os gêneros e pelo estouro dos antigos impérios europeus e otomano. Peregrinos de tantos êxodos chegaram a estas terras. Africanos de várias nações, europeus sem mais fronteiras e orientais diversos como sírio-libaneses, turcos, judeus sefarditas etc, todos tiveram que reerguer-se nestas terras novas.

Uma “mistura” cujos principais ingredientes culturais, curiosamente, já haviam convivido durante mais de sete séculos na Península Ibérica, naquele antigo grande polo artístico e intelectual mundial que foram a Espanha e o Portugal islâmico: Al-Andalus. Daquele território fértil saíram os povos colonizadores espanhóis e portugueses, fundadores daquela América do Sul que tem sido chamada de Extremo Ocidente. Esta mestiçagem quer inspirar a V edição do Festival, que propagará uma mensagem de paz através das músicas antigas de várias partes do mundo (mas com um tronco comum) e tocadas por grupos vindos de países que estão hoje em conflito ou guerra entre eles. Será o Festival da inclusão e da harmonia, que deseja abrir-se e oferecer aos seus públicos acesso a novos horizontes musicais que reúnem homens e mulheres de todas as origens e não os mantém, lá como aqui, em guetos étnicos, sociais e também culturais.